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6.21.2009

lancemos, agora, os vales ao rio, que só nos engendram barreiras. quebremos o sólido monte que nos abala, que de terra feito, de poético, pobre!, tem apenas o som erudito de uma mágoa. que de mim, te encontre onde estejas, para reconhecer que caminhos cruzamos ao nos encontrarmos despidos. e que o teu aposento me acolha em terno abraço, para que te enleve as pernas em pernas, os braços de enleio em braços, e de lábios laçados por lábios. que nada mais há para nós, que os contornos despidos de sempre, sobre os vocábulos já sabidos sob o anoitecer em vão e madrugada depois da dança dos contornos e de aurora sobre a nossa cama, vinda da janela oca do nosso silêncio de amanhecer.
olhares de sexo, de boas-vindas, de como estás.
meu amor, não há rosto pálido que testemunha não seja dos hediondos segredos que guardamos. todo o teu corpo mudo, aconselha ao cal que, de medo, não me lanças, cal lhe lançes, demónio!, mas só os teus seios se deixam enlouquecer pelo maldito que sou, ao não calarem a tua voz.
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o nú sob o tecto despido
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6.12.2009

algo caótico avassala o metabolismo dos corpos.
fazemos amor entre as cinzas e em cada carta dilacerada.
há um tempo consistente que se escassa em cada beijo. há um tempo desprovido que se consome entre os nossos lábios. quase nos consumimos por inteiro ao enfartar a fome que nos embarga. quase não chegamos para nos saciar, quando somos as rimas intrépidas do vagabundo e a sua fome moribunda. a merenda podre e parca. os cem anos de ruína sobre a solidão.
nada floresce tão elegantemente, sob urtigas e espinhos arruinados quanto o nosso amargurado romance. quase acabamos a estrofe a meio, em grandes trejeitos, ao enlevar os laços. ao procriar as nefastas raízes do mal consumado.
mas gostava de beijar-te, ainda, em suave mordida, o teu pescoço, maldita!, para perceber a ira dos sanguinários e que bestas se dilatam nas minhas veias, escravas serviçais da arte.
quase me visto em fúnebres demónios, te juro. ou, amor meu, apostas que apenas me dispo?
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ânsias comuns do nosso quase amor
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6.08.2009

galguei o alento de pedinte e supus-me rei:
dono de certezas, o reflexo, me soube espelhar.
sem ser castigado pelas madrugadas de lamúrias,
recebi castelos surgido do pó da proa,
e a noite não apareceu para mos condenar.
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medíocres?, eram trocos de nada validos,
mas tantos e guardados, decerto, tão bem:
fortunas, coisa abençoada, abastança!
de pouco útil, sabia bem ser de boa aparência:
minha riqueza desafortunada!...
foi um trono que se me fez, amor!
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um olhar novo é antes um olhar esmerecido,
quando um beijo teu mendiguei e, sem esmola ao bolso,
devolvi a mão aberta ao seu amarro abrigo.
logo as minhas eloquências souberam ferir,
a boca tua, trovadora de profecias que silenciavam,
nas palavras que hoje não mais sei calar.
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beijaste-me!, e amor algum era par de dança,
no baile de aparências das línguas nossas.
eram, apenas, carinhos que o acaso delinha.
deplorar seria, meu amor, desacertado.
afinal, que importância tem, gaiata?...
as aparências de ninguém, na boca minha?
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sob nossos castelos
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6.05.2009

tu que és porto de palavras duras,
que sabes agonizar as molestas desditas,
de mármore ao peito, de vozes nuas,
como sentes o cais à hora de chegada,
quando ainda as andorinhas abalam na ida?
já o bote de bagatelas as devia ter levado!
ó nefanda sina que, certeira, nos calhou…
como deleitas o trono em silêncio plácido
ao reconhecer que a desventura povoa
o reino que devaneámos encantado?
e mais que ao desamparo de tudo,
e desertos, e negrumes, e nenhures,
ele é servo triste do mal habitado
e do residido bem que foi já bom.
o cálice de juras não embaía inteirezas
e, em certa hora, proferiu impostura,
calha, velho tramado, que entornei as promessas:
elas trovam em plenas melopeias,
e têm patas, canícies e teias
de saudades mortas de plenitude
e das mágoas, desejo de um findar.
são, portanto, já horas certas e fiadas de extinguir,
o que encanta cada um de nós e maltrata ao prometer
o que nunca, na vida, se aprazou a se realizar.
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cais de pecados
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4.29.2009

receio não te poder contar o que se existe por aqui. é acolhido pelo pecado e suplica a companhia do proibido. eu te descreveria paisagens estranhas mas todas elas seriam demasiado abstractas para serem lidas. seria fácil fazer destas palavras simples receios, simples de serem entendidas por muitos, compreendidas pelo verdadeiro e pelo que existe. mas seriam apenas palavras mudas quando o que permanece, aqui, é apenas o resto de um longo choro.

quem ainda não morreu...?

é difícil compreender até que ponto não erramos no conhecimento de tudo o que nos acolhe. até que ponto concedemos flores frescas a quem sofre com a mágoa de acompanhar o rumo errado. até que ponto nos murcham as razões para o fazermos...
é pecado conhecer o que existe em cada esquina, sem afirmar, irrevogavelmente, que o céu cai a cada instante. é tarde demais para perceber quem errou e que marcas permanecem, ainda hoje, vincadas no peito. seria um pecado maior solicitar desculpas: passou o tempo de arrecadar mágoas que naufragam, ainda, nos moribundos cadáveres da costa. e, como todos os cadáveres, permaneceremos, também nós, mortos para sempre.

quem ainda não morreu...?

meu amor, quando acolhidos pela miséria impetuosa e arrebatada, sob o que ainda permanece, residiremos no ergo de tudo, vislumbrando falésias incontornáveis de sonhos abismados. e tudo isso será parte de um drama que vingou o único beijo que, em meus lábios, ardeu em chamas demasiado fugazes para corpos tão débeis e, como nós, estarão, também eles, mal saciados de lembranças afortunadas.
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essência proibida
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4.18.2009

estas linhas mortas, contam a história de braços abertos. cansados, inúteis, alastrados e tudo pela incerteza de um abraço. vistos na esquina por cegos, esquecidos por vê-los. contam com os lamentos da partida e da chegada. contam as histórias da alvorada e do amanhecer, que não valem para nada. estas linhas mortas, contam a história de braços abertos. esgotados, incapazes, juncados e tudo pela incerteza de um abraço. vistos na lápide por mortos, distraídos por querê-los. contam com os lamentos do mal amado e da pouco enamorada. contam as histórias da noite e do anoitecer, que não valem para nada.
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perspectiva mordaz
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4.04.2009

Nós estranhamente vivos
Mas de facas em punho.
Houve uma luta vencida,
Houve a jazida do sonho.
Nós estranhamente vivos
Mas servos de mórbidos olhares.
Houve um destino perdido,
Houve uma sina esquecida entre mares.

Não me mates agora, meu amor;
Confia no que proferes enquanto iludes a razão:
O amor deixa bilhete quando parte!
À luz da madrugada,
A chama iluminou o que ainda há para viver;
E aí, em espanto, ficou
A presença breve de uma nova utopia;
A esperança iludida de um novo amanhecer.

(Não sonhes, triste; não chores)
Havia um único sonho
E esse, esquecido, não mais se lembrou de permanecer.
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amanhecer
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